quinta-feira, 28 de julho de 2011

Minhas maneiras de te amar

Para você, A.B. com enes que eu não sei contar...

Tenho muito mais dúvidas do que certezas
Hoje, com certeza, eu só tenho você...


Te amo. Te amo nos gestos mudo. Te amo nos sons da sua risada, na ironia da sua gargalhada. Te amo no seu silêncio. Te amo nos furtos noturnos que te faço em busca de um incomodante sussurro que vem, venha, virá dos teus doces lábios. Te amo nas tuas imperfeições virtuosas, da tua cor da pele, até a enigmática luz que reverbera dos teus fios e dos teus olhos.


Te amo quando fecho os olhos e imagino a ti em perfeição. Meus olhos voaram como pássaros em busca de descanso, meus olhos descansaram, quando foram iluminados pelos seus. Havia luz na escuridão. Meus olhos alcançaram paz, quando alçaram voo em busca de liberdade. Em algum lugar, alguém já deveria ter borrado no rascunho amarelado das páginas eternas, etéreas, que as nossas mãos perdidas se achariam. Se acharão.


Te amo nos teus desejos mais tranquilos. Te amo com a força insana que um animal selvagem e pensante consegue e pode amar a outro. Te amo sem saber dizer um porquê, te amo, porque te amo, mesmo sem saber te amar.


Te amo como um barco ama navegar e os navegantes amam ir e voltar para encontrar um cais. Te amo como um fugitivo ama encontrar um refúgio. Te amo porque você me roubou a minha solidão. Te amo valorizando a tentativa de acertar e fazer valer cada segundo teu. Te amo como se hoje fosse o fim do mundo, e fosse a última vez de eu te dizer que te amo.


Para os que amam, amantes ou não, amados ou nãos, e vivem, porque vivem pelo amor.
A parte da semana para todos.

“As Sem-Razões do Amor”, Drummond

“De Fé”, Engenheiros do Hawaii

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Os lábios de um mesmo sorriso

Quando está chovendo eu quero calor, quando a temperatura sobe, quero um frio daqueles! Bbbbruu! Sou impreciso como a precisão que tomamos das falhas das previsões do tempo, ou como os pés descalibrados dos jogadores de domingo. Falo bibliotecas, quando uma palavra resumiria todo o sentimento descalibrado, impreciso. Entro no mato com cachorros, e me perco. Eterno sentimento de insatisfação humana (eufemismo para egoísmo?). Vou ao espelho e me surpreendo com a criança que se reflete ali: os hormônios não se cansam em me deixar barbudo, desleixado e envelhecido; eu não me canso de ver uma criança pequena, curiosa, boba – não usei o termo criança de uma maneira qualitativa, usei como a realidade de alguém que vê o tempo passar sorrindo, com a mesma insegurança de tempos atrás.

Quando eu descer do navio, você estará no cais a me esperar? 
Quando você pedir ajuda, será que eu vou ouvir?
Quando eu estiver bem longe do seu lado, será que você vai sentir?
Quando nossos olhares se cruzarem, será que vamos nos reconhecer?

Quem canta seus males espanta. Quem, como eu, não encanta quando canta; canta para, no mínimo, deixar o tempo curto correr, deixar os próximos distantes e aproximar o sentimento longínquo do lado esquerdo do peito para os lábios.

Para que servem as escamas dos peixes? Servem para pergunta da prova da bio ou o logia da proteção varia conforme a espécie? Para que servem as armas abastecidas de balas sem direção? Serve desproteger quem precisa de proteção? Para que se bombeia um coração que não está aberto para o amor? Serve viver sem amor? Para que servem palavras que não dizem nada? Serve sorrir sem alegria? Quantas palavras usamos tentando disfarçar o que sentimos? Serve ver e não crer? Para que serve o dom de falar se há na ponta da língua palavras que nunca serão despejadas, que nunca rolarão goela para fora, que nunca atingirão o alvo? Para que serve o alvo se nunca se tenta acertá-lo? Servem dardos dorminhocos, intocados?

Passamos vidas de mais ouvindo o disco errado: cansando a vitrola. Passamos vidas de mais lendo o livro errado: deixando na poeira os versos ou parágrafos para toda uma vida. Passamos vidas de mais no lugar errado: esperando o inesperado, quando o prudente é buscá-lo. Passamos vidas de mais sozinhos no meio da multidão: bastaria sua alma para completar a minha. Passamos vidas de mais querendo a pessoa errada, quando a princesa ou o príncipe estão do nosso lado, a nossa espera. Passamos vidas de mais até perceber que a vida é a antiga inimiga da perfeição.

Ser imperfeito é condição de tentar ser feliz. A eternidade está situada em um corredor sem fim.

Não quero ser um mentor, não quero ensinar, quero ser aprendiz, muito mais por uma condição sem fim que por orgulho intelectual.

Passo dias, que são anos, lendo a vida de vidas já vividas – como uma criança pequena, curiosa e boba – enquanto você rele romances intermináveis e inéditos

Músicas certas, shows errados. Em quais curvas retas, vou me encontrar contigo e tu se encontrarás comigo? Rostos que se vêem no espelho, vidas que se cruzam: pretérito e presente.

Têm coisas que só as palavras conseguem descrever, outras só o coração.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Mais do que não foi dito

A única máscara que me cobre, me guarda e reflete quem sou.

Snorkel, lastro, BCD, regulador e octopus, máscara, nadadeiras, cilindro de ar comprimido. Ok. Água fria. Hora de mergulhar no lago do eu...

Talvez eu não tenha sido a pessoa mais honesta. Talvez eu não tenha sido bom o bastante para me orgulhar de mim.

Água fria, águas tranquilas.

Talvez a minha coragem seja a minha fraqueza e meus medos minhas virtudes.

Braços, baçadas. Para baixo, para baixo.

Releio os rascunhos da estória da minha vida sem saber em que capítulo parar, que linhas marcar, que páginas apagar. Talvez eu não tenha amado o suficiente para ter merecido amor (essa página tem espaço para uma célere, torta e apertada anotação: como entender o porquê de amar, se não sei o porquê do amor?).

Nadando, nadar, nadando.

Nas estranhas sensações da noite o meu corpo transpira desespero por permanecer imóvel, quieto e covarde. Não lutar, não tentar, não ganhar.

Há perdão para um céptico confesso? Confesso não me perdoar. Confesso não merecer perdão. Há luz no fim do túnel?

Lanterna nas mãos. Clique...

Algumas vezes me abandono no meu próprio caminho.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Das coisas inatas

Desde muito pequeno sempre passei minhas férias e feriados no mesmo lugar, na mesma casa. Não, não é na rua dos bobos. Não, ela não tem o número zero, embora até hoje eu não saiba qual o número que a casa tem. A identificação numérica vale para as companhias de Água e Energia, para mim, bastam às inúmeras recordações que tenho do lugar e das pessoas que por ali circularam. A casa é pequena, bem pequena, menor ainda para uma pessoa de quase dois metros.

É talvez eu tenha crescido demais. É talvez as coisas não tenham se adaptado a mim.

Bom, talvez eu tenha sido forçado a me adaptar aos contratempos de portas menores, chuveiros pequenos, elevadores apertados, poltronas sem espaço. Bom, talvez eu tenha sido forçado a me acostumar com a nova versão das coisas, a readaptação ao mundo.

Pensando bem, eu acho que dormi no ponto nas minhas aulas de biologia, geografia e história (lembrando meus tempos de estudante secundarista – há seis meses – sinto saudade da rotina freqüente de estudos acompanhados ou sinto saudade de ter uma rotina?), pois não me atinei ao fato de que viver é uma constante adaptação a tudo. Pensando bem, acho que dormi no ponto em tantas outras coisas: do ouro que vendi pensando ser grão de areia, dos amores que esqueci pensando ser besteira. Meu pai se adaptou aos acordes de Engenheiros do Hawaii e vive cantarolando o refrão de o Papa é Pop. Minha mãe é pop, e se adaptou ao som da bossa de Caetano. Adaptações.

Desde que cresci mudei meu plano de férias. Passo meu tempo no apartamento da minha tia, em Pernambuco. Dia desses, voltei para lá e revi os desenhos de plantas de imóveis que meu primo costuma fazer. Cálculos para cá e para lá. Exatos. Lógicos. Dia desses, enquanto estava lá, vi uma criança pequena tentar andar sozinha. Um, dois, três passos cuidadosos. Pais cuidadosos. Cada passo era mais firme do que o outro. Cada conquista atual valendo mais que a anterior.

Há um paradoxo se você pensar que com os números você consegue contar quantos planetas existem (e planetas são visivelmente insondáveis), quantas estrelas nascem, quantas pessoas morrem de fome e não saber quantos passos se dá sozinho até aprender a andar e até chegar a felicidade quantos quilômetros vamos caminhar? É irônico saber quantos quilômetros o carro faz consumindo combustível e não saber quantas risadas ou lágrimas o esperam na próxima estação?

Sempre li as placas nas BRs, sempre que andava com meu pai. Meu pai sempre zelou pelo excesso de informação na rodovia. E as placas chovem de números: João Pessoa 56 quilômetros, Mamanguape cinco quilômetros, São Paulo... Sempre passei férias sem meu pai, sempre rezo mais, sem saber rezar, para seguir no banco de trás do carro contando placas com números...

Sigo decorando a distância entre as localidades. Pode ser o que chamam de conhecimento erudito? Pode ser que me perguntem a distância entre aqui e acolá e eu saiba responder, embora eu não saiba, com exatidão, com lógica, com erudição: quantos passos é preciso dar até ver um sorriso sincero e sentir o desejo forte no peito, que faz tudo valer à pena?

Muito embora eu não tenha decorado quantos passos dei desde que aprendi a andar, posso apostar, sem nunca ter lucrado com loterias, que os passos para o encontro da felicidade podem estar a 56 quilômetros, 149 quilômetros, 3 000 quilômetros de distância ou juntos e imóveis no banco de trás de um carro contando placas, numa caminhada determinada em busca do destino desconhecido, na descida em uma parada errada ou também na oportunidade de abrir o coração para as curvas retas do acaso, no beijo demorado, no grito da companhia silenciosa, na solidão física que acolhe a convivência da recordação mental, nas palavras que um abraço traz, no conforto que um olhar tem.

Números em placas servem apenas para marcar e informar distâncias? Números em placas quebram distâncias e aproximam estranhos conhecidos.