domingo, 24 de abril de 2011

Sincretismo platônico

Ela tinha o mesmo sorriso que o seu. Isso quando você costumava sorrir. Os traços altivos da pele dela eram os mesmo que os seus, que eu refazia meticulosamente em meus sonhos e em minha mente com tamanha freqüência e facilidade. Você viva na minha mente. Só minha. Mas hoje, eu podia enxergar você nela. Seus traços angelicais eram refletidos e somavam-se aos dela. E vocês eram uma. E você não era mais.

Não acho que desperdicei meus anos em amar você nem que deixei de viver. Sempre tive comigo que aquilo que eu conservava aqui dentro do peito era invencível e mantinha-me preso a vida, abstendo-me da mediocridade, a meu ver, de vida juvenil de poucos ou nenhum amores e muitas experiências envolvendo tolices. De fato, não sei quando parei de pensar assim. Traí você quando vi os cabelos ruivos dela esvoaçarem com a força do vento, dançarem como bailarinos alegres ao som no palco fazendo troça da minha incapacidade de me aproximar dela. Os grilhões eram irredutíveis. Vi-a correr solta para a vida ao atravessar à calçada e nem olhar para trás e nem sorrir para mim. Nem se curvar a minha verdade, à minha lei, à minha vontade, a mim. Solitariamente, naquele instante, eu percebi que estava me livrando de algo. Aquele ultraje no meu dia de felicidade, no meu dia. Eu estava me livrando de algo que me prendia ao meu passado, eu estava me livrando de você. Depois de tanto tempo, de ilusões, eu sorria de verdade, não para agradar quem quer que fosse, mas para alegrar o meu coração que naquele miserável instante se comprazia de ter de vê-la passar.

Não culpo você por nada. Nós nunca nos prometemos nada. Nunca nem nos olhamos de verdade. Nesses anos todos, nas poucas vezes que cruzamos a vista, dentro de seus olhos, eu via o desprezo que trazias por mim. Tão diferente dos meus que estavam recheados de amor. Talvez por amar-te, eu não quis enxergar a verdade. A verdade que trazíamos e que ela me mostrou. O amor nos cega e nos confunde a tal ponto de aceitarmos tudo com um brilho no sorriso e com os braços abertos. Aos poucos tudo ganha o seu toque de perfeição imperfeita e nos conformamos com um tudo ínfimo, ininteligível e impalpável. Eu também errei. Então eu lhe peço perdão por desistir de insistir em nós.

Não rasgarei a caricatura que fiz do nosso amor. O L do seu nome eu vejo de um jeito que você não vê, e sentindo uma espécie de gratidão e quase transmutação porque o seu lugar já está preenchido. E nessa prisão, estou liberto para me iludir, sofrer, chorar ou viver tudo de novo. Mais uma chance. Um novo motivo para eu tentar ser feliz.