quinta-feira, 17 de março de 2011

Desafinado coração


Vou captar os últimos momentos que passamos, as últimas incertezas por onde navegamos. O último sabor dos seus lábios, o seu cheiro e até a cor do seu cabelo. De cor saberei seus defeitos, seus devaneios e o meu peito se encherá: sorrirei pelo seu cativante ontem. Vou sentir as últimas batidas do meu coração por essa história. Num amanhã, terei aprendido que o meu problema foi ter me prendido a uma possibilidade irreal.

Antes de você fechar esta porta, de nós dois, posso lhe fazer um último pedido?

Não desdém do nosso amor na continuidade da vida, porque eu acreditei nele até o fim. E vou guardá-lo: cheio de vida, em um dos altares que tenho no lado esquerdo do peito.

sexta-feira, 11 de março de 2011

Os Dias Em Que Você Não Esteve Aqui

Dezoito de Setembro, Dezenove, Vinte, Vinte e Um, Vinte e Dois, Vinte e Três, Vinte e Quatro, Vinte e Cinco, Vinte e Seis, Vinte e Sete, Vinte e Oito, Vinte e Nove, Trinta, Um, Dois, Três, Quatro, Cinco, Seis, Sete, Oito, Nove, Dez, Onze, Doze, Treze, Quatorze, Quinze de Outubro.

Um do mês Um, do ano de Mil Novecentos e Sessenta e Dois.


O quarto estava arrumado, as cobertas encontravam-se sobre a cama, o guarda-roupa permanecia trancado e não havia sapatos, roupas ou toalha fora do lugar. Estava vazio. Você não existia mais ali. A casa conservava a reverência do seu quarto. Sozinho, eu quebrava o silêncio com preces, meu canto lúgubre e suplicante. Apegava-me a minhas crenças com tamanha veemência que chegava a sentir parte do meu eu desprender-se caminhando como oferenda aos Céus. Rezava para conviver com seus defeitos por mais algum tempo, para você não viver apenas na tenuidade de minha memória; rezava para nossos momentos se esticarem mais.

Foi um baque você não se despedir. Sair sozinho. Separamo-nos em silêncio. À distância insondou nossos corpos, não os nossos sentimentos, que foram sepultados dentro de nós. Porém era inocência querer antecipar a dor.

Paramos.

Paramos em uma espécie de purgatório esdrúxulo, onde, cada um a sua maneira, pudemos, detalhadamente, avaliar os processos ao qual nos dirigimos até ali. Tudo era inamovível: casa, quarto, vida. O tempo escorria um pouco de nós ao passearmos sozinhos e distantes por ele. Sofri por não ter dito tudo aquilo que o coração está cheio, os ouvidos precisam, mas a boca reluta e ignora. As horas foram dias. Movíamos, lenta e ociosamente, nossas vidas, agora equivalentes em lamúria. O abismo imensurável tomou, tornou vida entre nós. A tristeza, em alguns momentos, fugia ao ser superada por uma dor maior. Embora, não valêssemos muito, passávamos para uma disputa nem circulante entre cambistas ou contrabandistas pífios. Esse nós, não sou eu e você. Somos eu e eles. Você, diferente de todos, era acirradamente disputado pelos ourives. E esse valor eu só calculara e percebera longe de você. O brilho se dissipou levando-o.

Como encontrar paz assim?

Como ver a sua bravura diluir-se na fragilidade da agonia desvairada?

Preferi chorar baixinho e sozinho: acovardar-me. Preferi fechar os olhos – mas você não me abandonava, nestes momentos eu ainda via seu sorriso invisível e suas feições rudes me ordenando coragem – tentar subtrair essa sensação horrenda de incapacidade e perda. A lança cravada no meu peito sangrava calmamente, pingo a pingo. Quando eu, finalmente, pude descansar meu corpo, minha mente tornava a recapturar aqueles corredores tão limpos e impregnados com aquele odor de desespero, com aqueles jalecos alvos que me jogavam violentamente para o canto de tamanho tormento.  Naquelas situações, revivi meus pesadelos: embeveci-me de temor e horror. A crueldade de meus atos, pensados e impensados, suspiravam. A sua cura dependia, ilogicamente, das nossas virtudes apagadas. Os dias em que você não esteve aqui corriam eternos, demasiadamente tortuosos e descrentes.

Mas os faróis da esperança iluminaram uma primavera aromaticamente fértil, com um aquecimento de espírito.  Sua enorme sombra e o som de seus pesados passos foram vistos e ouvidos de novo; a nova chance e uma ínfima fresta de alegria irradiaram casa adentro. No desabrochar das flores, alcançávamos a mais preciosa oportunidade. Não há resposta presente de um final feliz.

Nunca encontrarei palavras para descrever isso com exatidão. Duvido que um dia eu tenha essa capacidade ou venha a ser agraciado com esse dom. Porque o coração guarda coisas que vivem presas por um tempo incontável, embora sejam esquecidas e pareçam mortas, elas movem-se ao leve toque da recordação e zumbem batendo nossa porta.  

Dia nove