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segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Normal Demais


Aquela risada demorada, aquela música com o ritmo contagiante: sem você, nada disso tem graça. Aquele gol salvador aos 46 do segundo tempo, aquele nocaulte sensacional, aquela sensação de felicidade: dura pouco, porque sem você, nada disso tem graça. Os livros e seus trechos marcantes, aquela lembrança palpitante, do que vale o que eu sei, se sem você, nada disso tem graça?

Sem você ao meu lado, as rosas tão vermelhas não são mais tão púrpuras, o Sol não aquece, os ônibus são confortáveis e o sono vem no horário. A multidão pode me acompanhar, as pessoas podem me aplaudir, mas sem você ao meu lado, do que adianta ser louvado? Caetano, Rimbaud, Darwin ou Freud são tão comuns, os vejo e nada me encanta, a genialidade parece perdida na leitura do segundo parágrafo, e você já deve saber o porquê: porque você não está ao meu lado. Raul, desgenializado, parece ser um bossa-novista, o rock'n'roll é erudito toda vez que escuto sozinho, sem você ao meu lado. As cores ficam ainda mais sem definição; a cerveja torna-se doce; minha coragem se vai; Jesus carrega duas cruzes em vez de uma, as duas tão somente com seus próprios pecados; o nada é tão mais vazio; o inferno é o lar que ensinam nas Igrejas convidando os fieis; a alegria é tão fulgaz; o silêncio é tão atroz, isso sempre acontece, quando você não está ao meu lado.

Meus erros de bom português, meus acertos de péssimo matemático são tão normais. São normais demais. Cadê a minhas manias excêntricas? Cadê meus horários sem nexo? Cadê minha fé nenhuma? Até ouso ligar a tevê. Por quê? Sem você, Sílvio Santos não joga aviõezinhos para sua plateia unanimamente feminina; o Mainardi não é ácido, e beija as mãos da esquerda; Che é conservador e aperta a mão dos americanos; o Flamengo não tem a maior torcida do Brasil. Sem você, eu não sou quem penso que sou (e nada é), e sou tão normal demais.

Canções, textos, poesia, prosa, futebol, êxtase: sem você, nada disso tem graça, viver é vagar sem sentido, tudo é normal demais, porque você não está ao meu lado.

sábado, 20 de agosto de 2011

Enlutado presente

A sola dos pés queima sob o cálido chão de cera, e os pés não o tocam. As vozes gritam na cabeça que parada, roda, indo e vindo do passado ao presente, do começo ao fim. As repetições da mesma cena, as tentativas inúteis de alterações naquela rouca retórica louca. O fim que ninguém pode mudar. O passado vivo no presente. A porta batida. O som do seu baque surdo. O incomodante silêncio. A solidão que se recusa a se fazer presente. O medo que amordaça.

Durante o incontável saber aquilo persiste feroz seu interior, transparecere na outrora iludida face alegre. O sorriso amarelado se esconde pelas duras lágrimas amargas. O quarto inundado pela dimensão sentida do abandono. Como uma torneira aberta que escorre sem fim. E em cada lágrima que se vai aquele sentimento se perde no vazio para nunca mais voltar. Para nunca mais voltar.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

2 minutos de amor



A água continuou a cair em abundância. O chuveiro fazia seu barulho e a menina foi forçada a adentrar sua cortina de vapor e água. Sob o jorro do líquido quente, ela recontava, mentalmente, a rotina do desconhecido, a repetição da fulgacidade, os passos até e após ali. Apoiou-se calada.

A serpente rastejava pelo chão empoeirado, traçando seu corpo naquela camada de terra, marcando-o como se existisse o nunca. Calmamente fechou os olhos e deixou as águas lavarem-na. Anoitecer quente, lábios tocados, sorriso forçado para ser roubado, mais um decote para os cílios afastar, saia jeans, salto alto, respiração ofegante. Balançou a cabeça, os longos cabelos encobriam-lhe o rosto, juntos sambavam de um lado ao outro, entrando e saindo dos domínios que escorriam do chuveiro.

As serpentes se enroscaram, se abraçaram sufocantemente, se cravaram. Quem sentiria mais a mesma dose de veneno que pingava em ambos os corpos? A água foi ordenada a parar, a menina tocou seu próprio corpo, cantou seus desejos com as mãos, e com elas se agasalou em uma toalha. Lábios no batom. Roupa no corpo. Coração no armário.

As serpentes se afastaram, acreditaram que estavam intactas, cruzaram a mesma trilha, seguiram até se encontrarem com suas mortes, embora não se reconhecessem nem percebessem que o sorriso pintado nos lábios escondia a tristeza da próxima felicidade.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Minhas maneiras de te amar

Para você, A.B. com enes que eu não sei contar...

Tenho muito mais dúvidas do que certezas
Hoje, com certeza, eu só tenho você...


Te amo. Te amo nos gestos mudo. Te amo nos sons da sua risada, na ironia da sua gargalhada. Te amo no seu silêncio. Te amo nos furtos noturnos que te faço em busca de um incomodante sussurro que vem, venha, virá dos teus doces lábios. Te amo nas tuas imperfeições virtuosas, da tua cor da pele, até a enigmática luz que reverbera dos teus fios e dos teus olhos.


Te amo quando fecho os olhos e imagino a ti em perfeição. Meus olhos voaram como pássaros em busca de descanso, meus olhos descansaram, quando foram iluminados pelos seus. Havia luz na escuridão. Meus olhos alcançaram paz, quando alçaram voo em busca de liberdade. Em algum lugar, alguém já deveria ter borrado no rascunho amarelado das páginas eternas, etéreas, que as nossas mãos perdidas se achariam. Se acharão.


Te amo nos teus desejos mais tranquilos. Te amo com a força insana que um animal selvagem e pensante consegue e pode amar a outro. Te amo sem saber dizer um porquê, te amo, porque te amo, mesmo sem saber te amar.


Te amo como um barco ama navegar e os navegantes amam ir e voltar para encontrar um cais. Te amo como um fugitivo ama encontrar um refúgio. Te amo porque você me roubou a minha solidão. Te amo valorizando a tentativa de acertar e fazer valer cada segundo teu. Te amo como se hoje fosse o fim do mundo, e fosse a última vez de eu te dizer que te amo.


Para os que amam, amantes ou não, amados ou nãos, e vivem, porque vivem pelo amor.
A parte da semana para todos.

“As Sem-Razões do Amor”, Drummond

“De Fé”, Engenheiros do Hawaii