Quem será o responsável por derramar a última lágrima? Quem vai se encarregar de apagar a última, frágil e fugaz recordação de nossas vidas? Quem vai emudecer o zunir dos nossos nomes? E quando os dias nos levarem para a mesma esquina, e nos confrontarmos frente a frente como dois estranhos, dois desconhecidos, dois amantes esquecidos, quem vai desviar o olhar? Quem vai trocar as horas exíguas de amor por desprezo incontável? No ápice de nossos devaneios, somos o porquê um do outro. Fomos o atrevimento irresponsável da conjugação do verbo amar. Fomos um. Somos dois. Você se enlaça e vê da sua sacada, a derradeira sacada do prédio, a eterna escuridão do Céu, os raios, a chuva; vê o Sol no lar, na terra em que ele nasce primeiro, sempre, só para você. Ao longe um som de percussão, uma solo de gaita e uns acordes de viola. Fim da linha. "O que fazer? Meu sentimento está preso... e eu queria ter tanto você aqui".
domingo, 19 de junho de 2011
domingo, 24 de abril de 2011
Sincretismo platônico
Ela tinha o mesmo sorriso que o seu. Isso quando você costumava sorrir. Os traços altivos da pele dela eram os mesmo que os seus, que eu refazia meticulosamente em meus sonhos e em minha mente com tamanha freqüência e facilidade. Você viva na minha mente. Só minha. Mas hoje, eu podia enxergar você nela. Seus traços angelicais eram refletidos e somavam-se aos dela. E vocês eram uma. E você não era mais.
Não acho que desperdicei meus anos em amar você nem que deixei de viver. Sempre tive comigo que aquilo que eu conservava aqui dentro do peito era invencível e mantinha-me preso a vida, abstendo-me da mediocridade, a meu ver, de vida juvenil de poucos ou nenhum amores e muitas experiências envolvendo tolices. De fato, não sei quando parei de pensar assim. Traí você quando vi os cabelos ruivos dela esvoaçarem com a força do vento, dançarem como bailarinos alegres ao som no palco fazendo troça da minha incapacidade de me aproximar dela. Os grilhões eram irredutíveis. Vi-a correr solta para a vida ao atravessar à calçada e nem olhar para trás e nem sorrir para mim. Nem se curvar a minha verdade, à minha lei, à minha vontade, a mim. Solitariamente, naquele instante, eu percebi que estava me livrando de algo. Aquele ultraje no meu dia de felicidade, no meu dia. Eu estava me livrando de algo que me prendia ao meu passado, eu estava me livrando de você. Depois de tanto tempo, de ilusões, eu sorria de verdade, não para agradar quem quer que fosse, mas para alegrar o meu coração que naquele miserável instante se comprazia de ter de vê-la passar.
Não culpo você por nada. Nós nunca nos prometemos nada. Nunca nem nos olhamos de verdade. Nesses anos todos, nas poucas vezes que cruzamos a vista, dentro de seus olhos, eu via o desprezo que trazias por mim. Tão diferente dos meus que estavam recheados de amor. Talvez por amar-te, eu não quis enxergar a verdade. A verdade que trazíamos e que ela me mostrou. O amor nos cega e nos confunde a tal ponto de aceitarmos tudo com um brilho no sorriso e com os braços abertos. Aos poucos tudo ganha o seu toque de perfeição imperfeita e nos conformamos com um tudo ínfimo, ininteligível e impalpável. Eu também errei. Então eu lhe peço perdão por desistir de insistir em nós.
Não rasgarei a caricatura que fiz do nosso amor. O L do seu nome eu vejo de um jeito que você não vê, e sentindo uma espécie de gratidão e quase transmutação porque o seu lugar já está preenchido. E nessa prisão, estou liberto para me iludir, sofrer, chorar ou viver tudo de novo. Mais uma chance. Um novo motivo para eu tentar ser feliz.
quinta-feira, 17 de março de 2011
Desafinado coração
Vou captar os últimos momentos que passamos, as últimas incertezas por onde navegamos. O último sabor dos seus lábios, o seu cheiro e até a cor do seu cabelo. De cor saberei seus defeitos, seus devaneios e o meu peito se encherá: sorrirei pelo seu cativante ontem. Vou sentir as últimas batidas do meu coração por essa história. Num amanhã, terei aprendido que o meu problema foi ter me prendido a uma possibilidade irreal.
Antes de você fechar esta porta, de nós dois, posso lhe fazer um último pedido?
Não desdém do nosso amor na continuidade da vida, porque eu acreditei nele até o fim. E vou guardá-lo: cheio de vida, em um dos altares que tenho no lado esquerdo do peito.
sexta-feira, 11 de março de 2011
Os Dias Em Que Você Não Esteve Aqui
Dezoito de Setembro, Dezenove, Vinte, Vinte e Um, Vinte e Dois, Vinte e Três, Vinte e Quatro, Vinte e Cinco, Vinte e Seis, Vinte e Sete, Vinte e Oito, Vinte e Nove, Trinta, Um, Dois, Três, Quatro, Cinco, Seis, Sete, Oito, Nove, Dez, Onze, Doze, Treze, Quatorze, Quinze de Outubro.
Um do mês Um, do ano de Mil Novecentos e Sessenta e Dois.
O quarto estava arrumado, as cobertas encontravam-se sobre a cama, o guarda-roupa permanecia trancado e não havia sapatos, roupas ou toalha fora do lugar. Estava vazio. Você não existia mais ali. A casa conservava a reverência do seu quarto. Sozinho, eu quebrava o silêncio com preces, meu canto lúgubre e suplicante. Apegava-me a minhas crenças com tamanha veemência que chegava a sentir parte do meu eu desprender-se caminhando como oferenda aos Céus. Rezava para conviver com seus defeitos por mais algum tempo, para você não viver apenas na tenuidade de minha memória; rezava para nossos momentos se esticarem mais.
Foi um baque você não se despedir. Sair sozinho. Separamo-nos em silêncio. À distância insondou nossos corpos, não os nossos sentimentos, que foram sepultados dentro de nós. Porém era inocência querer antecipar a dor.
Paramos.
Paramos em uma espécie de purgatório esdrúxulo, onde, cada um a sua maneira, pudemos, detalhadamente, avaliar os processos ao qual nos dirigimos até ali. Tudo era inamovível: casa, quarto, vida. O tempo escorria um pouco de nós ao passearmos sozinhos e distantes por ele. Sofri por não ter dito tudo aquilo que o coração está cheio, os ouvidos precisam, mas a boca reluta e ignora. As horas foram dias. Movíamos, lenta e ociosamente, nossas vidas, agora equivalentes em lamúria. O abismo imensurável tomou, tornou vida entre nós. A tristeza, em alguns momentos, fugia ao ser superada por uma dor maior. Embora, não valêssemos muito, passávamos para uma disputa nem circulante entre cambistas ou contrabandistas pífios. Esse nós, não sou eu e você. Somos eu e eles. Você, diferente de todos, era acirradamente disputado pelos ourives. E esse valor eu só calculara e percebera longe de você. O brilho se dissipou levando-o.
Como encontrar paz assim?
Como ver a sua bravura diluir-se na fragilidade da agonia desvairada?
Preferi chorar baixinho e sozinho: acovardar-me. Preferi fechar os olhos – mas você não me abandonava, nestes momentos eu ainda via seu sorriso invisível e suas feições rudes me ordenando coragem – tentar subtrair essa sensação horrenda de incapacidade e perda. A lança cravada no meu peito sangrava calmamente, pingo a pingo. Quando eu, finalmente, pude descansar meu corpo, minha mente tornava a recapturar aqueles corredores tão limpos e impregnados com aquele odor de desespero, com aqueles jalecos alvos que me jogavam violentamente para o canto de tamanho tormento. Naquelas situações, revivi meus pesadelos: embeveci-me de temor e horror. A crueldade de meus atos, pensados e impensados, suspiravam. A sua cura dependia, ilogicamente, das nossas virtudes apagadas. Os dias em que você não esteve aqui corriam eternos, demasiadamente tortuosos e descrentes.
Mas os faróis da esperança iluminaram uma primavera aromaticamente fértil, com um aquecimento de espírito. Sua enorme sombra e o som de seus pesados passos foram vistos e ouvidos de novo; a nova chance e uma ínfima fresta de alegria irradiaram casa adentro. No desabrochar das flores, alcançávamos a mais preciosa oportunidade. Não há resposta presente de um final feliz.
Nunca encontrarei palavras para descrever isso com exatidão. Duvido que um dia eu tenha essa capacidade ou venha a ser agraciado com esse dom. Porque o coração guarda coisas que vivem presas por um tempo incontável, embora sejam esquecidas e pareçam mortas, elas movem-se ao leve toque da recordação e zumbem batendo nossa porta.
Dia nove
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